Geekview – It: A Coisa

It “A Coisa”: Uma Dedicada Aventura Pelo Horror

Stephen King é, sem dúvidas, o maior nome entre os escritores norte-americanos do gênero de Horror. O gênio por detrás de obras como “A Torre Negra”, “A Dança da Morte”, “O Iluminado”, e tantas outras já consagradas na cultura popular não poderia ter encontrado um diretor mais minucioso e preocupado em entregar uma boa adaptação cinematográfica de sua arte como Andy Muschietti (Mama), que conseguiu equilibrar a medida perfeita de fidelidade ao material original com a dose correta de modulações inteligentes, naturalmente necessárias quando se desenvolve um filme que precisa, entre outras coisas, captar a atenção e a emoção do público não habituado com a paciente ambientação que o livro constrói, assim como a maior riqueza imersiva de detalhes que uma obra literária proporciona.

O CUIDADO DOS ENVOLVIDOS

O Covil de Pennywise

Dito isto, é correto dizer que uma boa adaptação para as telonas é feita essencialmente da sensibilidade do diretor, que o guiará para a sintetização da alma da obra, do espírito da história, sem se esquecer de emular o estilo característico daquele mundo particular do livro, e nesta tarefa hercúlea, Muschietti foi Rei. A película do argentino é uma homenagem ao mestre, preocupadíssima em distribuir corretamente a quantidade de horror e aventura que permeia o livro e dita o seu ritmo, e ainda mais importante: o filme soube controlar seu próprio preciosismo ao decidir, sabiamente, quais cenas entrariam e quais cenas não entrariam no recorte final. É talvez este o momento mais crucial da confecção de uma adaptação, o divisor de águas que dirá se o filme será bom ou se acabará perdido em meio a tantos elementos soltos, simplesmente atirados no enredo, ficando a digerir pelo público.

Um fã preocupado, porém diretor inexperiente, erraria ao não conferir a fluidez necessária ao enredo, mais preocupado em manter-se fiel à amada obra, entretanto Muschietti provou-se tanto fã quanto profissional ao oferecer um verdadeiro balé na força criativa de edição, na escolha dos elementos mais icônicos utilizados e devidamente alocados na extensão do filme. Esta excelência do diretor é ainda mais distinguível se nos debruçarmos sobre o histórico de adaptações de obras de Stephen King, que infelizmente, não conta em sua maioria com grandes filmes, a bem da verdade, quase todos são ruins. Injustamente ruins, visto a qualidade do próprio escritor.

JOVEM E PODEROSO ELENCO

Dados os devidos louros ao diretor, é indispensável destacar a qualidade do elenco mirim eminentemente talentoso, o filme deve muito de sua qualidade aos dotes interpretativos e precoces de Finn Wolfhard (Stranger Things), no seu papel de Richie Tozier, que projeta uma assombrosa fidelidade com o personagem do livro, conseguindo rechear o filme com a irreverência e o teor abençoadamente cômico de Richie Tozier.

Não é diferente com os demais protagonistas, todos entregaram uma atuação impecável em termos de naturalidade e fidelidade ao material original e, acima de tudo, funcionam muito bem juntos, e isto é de fato a coisa mais importante sobre um filme que gira em torno dos fortes laços da amizade infantil, com toda a sua sagrada inocência, sonhos e medos compartilhados.

 

E O PENNYWISE?

Pennywise de 2017 X  Pennywise de 1990

Todos estes talentos só poderiam ser muito bem justiçados pelo brilhante antagonismo de Bill Skarsgård (Hemlock Grove), que deu vida ao demoníaco e misterioso Pennywise, a “Coisa” em forma de palhaço, que também assume outras formas mais, e que atormenta a vida das crianças em Derry. Skarsgård honra o manto antes pertencido a Tim Curry, apresentando uma versão do personagem tão lunática e perturbadora quanto a de Curry, um feito deveras admirável e raro.

 

RESULTADO DISSO TUDO…

Que nada se diga de negativo da qualidade fotográfica do filme, que consegue adicionar uma visão artística inenarrável da história, todas as cores radiantes em contraste com o cenário sombrio e oitentista da fictícia Derry conferem ainda mais vivacidade e terror à película.

Infelizmente a qualidade da trilha sonora do filme deixa a desejar, não apresentando muitos momentos memoráveis, momentos que poderiam ser mais bem explorados nesse sentido, levando em conta o contexto oitentista da história. Destacam-se negativamente também as breves cenas um tanto clichês, claramente postas ali apenas para agradar espectadores apáticos, que não conseguiram entender bem a intimidade subjetiva dos personagens.

It: A Coisa é uma magnífica adaptação, feita com o esmero peculiar de um fã e a prudência madura de um artista profissional chamado Andy Muschietti, é um filme dotado de coração, de uma nostalgia peculiar a todos nós, provinda de uma tenra infância de horas a aprontar pelas ruas, de segredos divididos no caloroso núcleo da amizade, e de medos sombrios reprimidos como podíamos. Vão e assistam, vocês vão flutuar também, vão flutuar também.

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