GeekView | Logan: um poema inesperado

Hoje tive um dia dos piores. Fez muito calor, os ônibus estavam lotados, as estradas empanzinadas de carros e suei como um doente. Neste momento, você, caro leitor, deve estar se perguntando: “O que diabos eu tenho a ver com isso? Eu só vim ler uma crítica sobre um filme”, espere um pouco mais, eu vou chegar lá, eu juro. Eu me mantinha otimista porque ao anoitecer eu iria ao cinema com um punhado de amigos, escolhemos assistir o filme Logan, do recém aclamado pela crítica profissional, James Mangold.

No caminho, uma pergunta batucava a minha mente: “Por que eu me permito esses momentos de penúria? Andando por aí feito uma sardinha enlatada em ônibus lotados”, com este questionamento persistente e depois de alguns contratempos, finalmente nos enfiamos na sala de cinema. O filme começa e já somos apresentados a um Logan (Hugh Jackman) decadente, vivendo um próprio inferno existencial parecido ter saído de um dos livros de Charles Bukowski. Wolverine é agora um homem dividido entre dirigir uma limusine e cuidar do muito idoso Charles Xavier (Patrick Stewart), o trabalho de despedida de Jackman no papel supera todas as outras vezes em que reprisou o personagem, expondo um lado humanizado de Logan, como sugere o título do filme, e não de seu alter-ego Wolverine.

É talvez essa relação de guarda para com Charles Xavier que condiciona o clima emocional dos espectadores para o porvir. A ambientação da película exala uma aura de deterioração, abusando positivamente da violência gráfica que recheia as cenas de ação tão impecavelmente justapostas na história. Os magníficos tons amarelos ensolarados fazem o palco para as cenas empoeiradas e os diálogos incisivos e diretos como um golpe de faca. A atuação do experiente Patrick Stewart, dando o máximo de seu talento mais uma vez, mas diferente pelas circunstâncias do espírito do personagem, dá o tom de fragilidade senil que colore o enredo. Dificilmente o veremos novamente com tanta maestria e contracenando com tanta sinestesia com a pequena Dafne Keen.

Certamente os melhores perfumes são guardados em frascos diminutos, e com a licença desta sabedoria clichê, eu falo de uma atriz assustadoramente expressiva que deu vida a Laura, a já conhecida pelos amantes dos quadrinhos como “X-23”, que apesar de contar com um roteiro limitado, imbuiu a sua presença na obra com uma fúria selvagem inigualável, sabendo equilibrar quase instintivamente o comportamento de um animal sanguinário com o de uma garotinha um tanto perdida, mas decidida.

Poucos atores funcionam tão bem juntos como Hugh Jackman, Dafne Keen e Patrick Stewart, numa química emotiva que envolve o sentimento de paternidade e amor que cerca a essência do filme e nos faz torcer para que prevaleça aquela centelha de bondade num mundo tão cinza como o mundo de Logan. Talvez o competente, porém ofuscado Boyd Holbrook (Narcos), interpretando o vilão Donald Pierce, tenha perdido um pouco dessa comoção geral, mas não prejudica o andamento do conjunto da obra.

Pierce (Boyd Holbrook) e Logan (Hugh Jackman) cara a cara. Crédito da Foto: Ben Rothstein.

O desenvolvimento e a conclusão dessa história nos faz entender aquele meu questionamento persistente: a verdade de que nos permitimos momentos de penúria para que possamos lavar a dor na satisfação do dever cumprido e alcançar a recompensa que por muitas vezes não nos contempla, mas contempla aqueles que amamos.

Saí do cinema no fim com uma sensação de absoluta compreensão sentimental. Logan definitivamente é um filme de super-heróis para quem não gosta de filmes de super-heróis. Surpreendentemente sensível e melancólico, o longa é todo sobre dor e vontade. James Mangold é o homem que vai te fazer vibrar nas cenas de ação e chorar para nunca mais pedir outro filme do Wolverine. Este é o único filme necessário sobre o personagem.

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