Crítica | Livro: A Flecha de Fogo – Leonel Caldela

Para os que já estudaram história, uma verdade é absoluta: existem várias facetas sobre o mesmo fato.

Isso é o que podemos resumir sobre A Flecha de Fogo, novo romance de Leonel Caldela. A história é narrada em primeira pessoa sob os olhares de Corben, o clérigo de Thyatis, O Deus da Ressurreição. E depois de 21 anos desde a ideia ter surgido na mente de J.M Trevisan sobre a Aliança Negra, Leonel finalmente fecha mais um arco no cenário de Tormenta.

O livro começa na cidade de Sternachten, em Tyrondir no ano de 1413. O lugar possui uma ordem de clérigos de Thyatis. Lá, a peculiaridade desta ordem vem no seu avanço pela nova ciência conhecida como Astrologia. Eles olham os céus e os estudam para compreendê-los, bem como para criar e desvendar profecias. Nobres e pessoas importantes visitam e até financiam as pesquisas para descobrirem o próprio futuro. E no decorrer dos anos, o maior desafio desta ordem é descobrir o mistério que rodeia o inimigo goblinoide. O que é a Flecha de Fogo?

Essa profecia diz que algo ou alguém decretaria o fim de Thwor Ironfirst e a derrota final do seu império que surgiu com a queda do reino élfico e de todo o mundo civilizado do continente de Lamnor, também conhecido como Arton-Sul. Khalifor, a cidade-fortaleza era a única e última defesa capaz de deter o avanço deste temível mal. Contudo alguns anos atrás ela foi subjulgada e nada mais poderia defender ou impedir o avanço de conquista deste poderoso Bugbear.

Os acontecimentos prosseguem: goblins são os vilões e grupos de aventureiros são os heróis. A tragédia se abate na cidade. Planos de ambos os lados são postos em prática. Até que, numa revirada de mestre tudo muda. Os heróis não são tão legais assim, os goblins não são tão vis. E o protagonista passa a enxergar a visão de mundo dos seres que deveriam ser seus inimigos. Eles possuem cultura, famílias, ideais e sonhos como qualquer outro ser. Leonel trás riqueza quando decide virar tudo de ponta cabeça.

A cultura dos goblinoides é rica e bárbara. Os goblins em si podem ser grandes gênios da ciência. Eles possuem uma inventividade sem igual em suas mentes caóticas, mesmo tendo uma visão distorcida e bem estúpida da matemática. Eles como povos tribais, possuem cerimônias de sacrifício, leis escravocratas e um modo de vida um tanto violenta se formos comparar como a civilização. Não existe moeda no seu estilo de mercado, nem escambo. Tudo se consegue na base da força, onde você mostra sua posição hierárquica como mais forte.

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Sobre os personagens eu posso começar destacando Gradda, a Pútrida. Uma goblin bruxa desbocada ao extremo, sagaz, com humor ácido sem igual e senso de aventura única, sendo impossível não simpatizarmos com ela. O final da personagem foi bom, perfeito pelas circunstâncias.

Maryx Corta-Sangue é uma hobgoblin. Caçadora implacável contra os seus inimigos. É completamente fiel a causa de seu imperador e fará de tudo para que seus objetivos sejam cumpridos. No fundo, é uma mulher sentimental, com um amor sem igual a sua família. O final de sua história não me agradou tanto. Foi sem nexo, deixou bastante a desejar. Corben na altura da história, não deveria ser capaz de fazer absolutamente nada para alterar os fatos, ser apenas um observador no desfecho da personagem e da história como um todo. Contudo, de alguma forma ele consegue com sua façanha mudar o destino dela e isso para mim foi um baita furo de roteiro.

As duas são goblinoides típicas, mas aos olhos de Corben são quase heroicas. Eu prefiro classificá-las como anti-heróis.

O próprio Corben, o protagonista de nossa história, é um clérigo com uma vida pacata. Jovem, ainda não possui tanta sabedoria quanto deveria. Na trama, ele se modifica. Após perder tudo e ver que seu modo de vida não significava nada comparado aos problemas reais, ele começa a refletir. Observa que nem tudo é preto no branco. Que os seres que deveriam ser os heróis possuem seus lados sombrios, que os goblins que ele tanto ouviu como seres horríveis podem ser tão humanos quanto ele.

E no meio da narrativa, ele enfrenta seus próprios fantasmas. Fantasmas de uma infância cruel quase esquecida, um presente pacata, mas desperdiçado com rixas bobas e a possibilidade de um futuro grandioso, em que ele finalmente poderia ser alguma coisa. O seu fim foi adequado, ele mereceu as conquistas no decorrer da trama, contudo, como disse acima, ele deveria ter sido apenas um espectador. Ele realmente não teria mais capacidades de ajudar ou controlar os fatos, tudo estava fora de controle e o que era para acontecer deveria simplesmente acontecer. Algumas coisas foram forçadas em minha opinião.

Thwor Ironfirst, o vilão odiado, amado, imperador goblinoide, líder da Aliança Negra, a Foice de Ragnar, foi um pouco interessante. Ele faz jus a sua inteligência, como descrito sobre o personagem nos livros de RPG, mas ao mesmo também eu o imaginava diferente. Achei-o um personagem mediano. Algumas cenas às vezes sem sal. O seu final, mais do que merecido. Não poderia ter imaginado um final desse tipo e nem um final melhor.

O sumo-sacerdote Gaardalok foi muito bem representado. Ele é sábio, inteligente, e um vilão de dar arrepios. Não preciso falar muito sobre ele. Infelizmente, o final do personagem deixou muito a desejar. Eu não gostei nenhum pouco.

Avran Darholt foi um personagem que gostei bastante. Achei-o bem construído, misterioso, poderoso. Ele deveria ser tudo o que um guerreiro sagrado segue, mas o personagem não é exatamente aquilo que aparenta. E o seu segredo é um dos mais sombrios que se possa imaginar. Em toda a trama ele teve um bom destaque e o seu final foi perfeito.

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Eu poderia destacar vários personagens, inclusive secundários, mas isso aqui viraria um bíblia. O mais novo filho de Thwor, por exemplo, achei muito interessante, diferente do comum e o seu fim foi merecido, mas também muito amargo. Outro personagem que gostei bastante foi um goblin idoso. Eu não sei se estou certo, mas como acompanho a Guilda do Macaco, a mesa oficial de RPG dos criadores do cenário, lembrei-me de algo interessante. Eles fizeram uma brincadeira quando anunciaram o lançamento da Flecha de Fogo para as pessoas que assistiam a live. Brincaram sobre a dublagem que o Guilherme Dei Svaldi fez, personificando um goblin idoso, talvez centenário.

Quando observei esse personagem no livro não pude deixar de conectar esses pontos e se meu palpite foi correto, achei muito bacana essa homenagem que Leonel fez, foi um dos personagens mais vivos que observei no livro. Tinha seu jeito único e quando vi o seu fim, não pude deixar de ficar emocionado. Ele foi o personagem mais heroico de toda a narrativa. Quem sabe eu não crio ou vejo a ficha dele ser feita? E o terceiro e último, é o pai de Corben. Nós observamos o que uma alienação, medo e insegurança do povo comum podem fazer com a mente de um homem e quando li o seu fim nos capítulos, não pude deixar de imaginar o mal no coração do homem. Foi bem adequado como um todo. Gostei bastante de sua construção. Outros personagens conhecidos também aparecem como o único gnomo do mundo Lorde Niebling, a princesa Tanya etc.

A Flecha de Fogo, a arma definitiva que traria o fim a civilização goblinoide não foi nada vindo das mentes especulativas dos jogadores. Quando descobrirem o que é, podem muito bem se frustrar ou até mesmo ficarem empolgados. Eu particularmente achei interessante: se formos pensar no que é, achei mais do que adequado.

O livro como um todo é decente. Muito bem construído e a sua escrita é fluída. Foi a primeira vez que eu tive contato com o trabalho do Leonel e eu não tinha a menor ideia de como seria. Fiquei surpreso quando li suas páginas em apenas três dias. Sobre a revisão, não tenho o que reclamar. Quanto à diagramação, entretanto, ficou um pouco ruim em algumas páginas, pelo menos no formato digital (a mídia escolhida para a leitura), mas não atrapalhou ou incomodou a leitura. É livro único, nada de trilogias ou séries longas o que para mim é uma vantagem. Possuí mais de 700 páginas, o livro físico com certeza deve ser do mesmo tamanho que os escritos por George R.R Martin. Outro ponto bacana foi à pequena referência da situação do cenário falando sobre Von Krauser e a guerra em andamento.

Sem mais delongas, esse foi mais uma resenha em parceria com a Jambô editora. Em breve trarei mais novidades para vocês. Lhes desejo boas rolagens no D20 e até a próxima.

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