Análise | A distopia como reflexo das relações sociais

Febre da distopia

Atualmente, muitos livros de distopia têm sido publicados. E esta não é a primeira vez que esta onda distópica acontece, tendo ocorrido algo semelhante no período das grandes guerras mundiais. Agora, no início do terceiro milênio, dominando as vendas em literatura juvenil, este gênero ressurge. Junto com ele, vem as questões: por que esse discurso está sendo valorizado novamente, ao invés de outros? E por que ele tem atraído a atenção dos jovens?

Para tentar responder essas questões e ilustrar melhor esse cenário, foi feita uma comparação entre livros das duas épocas citadas acima. Escritas entre as décadas de 40 e 50 temos 1984, de George Orwell e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Já entre as atuais, temos a trilogia Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins e a trilogia Destino, de Ally Condie. As obras foram analisadas qualitativamente por uma técnica chamada Análise de Conteúdo, que identifica as chamadas “unidades temáticas”, elementos em comum comuns nos textos analisados.

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Para entender distopia, vamos destrinchar um pouco a utopia. Ela é caracterizada como um ideal de sociedade alternativa à que se vive, o sonho de uma vida melhor, mais justa, e também, na maioria das vezes, inalcançável ou imaginária. É bom esclarecer que nem sempre a utopia é algo bom para todos os envolvidos neste projeto, pois, por serem reformas pensadas de forma verticalizada, o poder muitas vezes é exercido de forma a retirar de uma parcela da população o direito de decisão sobre suas vidas. Por exemplo: regimes totalitários, como o nazismo e o fascismo, possuíam planos de purificação tendo como objetivo uma sociedade em perfeito funcionamento, livre de diferenças, caracterizando um modo de pensamento utópico.

Definir distopia é um pouco mais complicado, porque não há uma definição unânime para seus estudiosos. Utilizamos o conceito de distopia como uma falsa utopia, uma vez que obras estudadas, em sua maioria, apresentam suas sociedades como aparentemente boas e perfeitas, escondendo esquemas de controle por detrás de um governo autoritário. Desta forma, foi necessário investigar os acontecimentos históricos que propiciaram o desenvolvimento do gênero e a identificação do público com as obras.

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Conhecendo as obras

As primeiras obras distópicas estudadas surgiram em meados do século XX, em um período marcado pelas grandes guerras mundiais e o momento entre elas, um momento de expansão industrial, imperialista e bélica, no qual o homem encontrava-se com esperanças acerca dos rumos tecnológicos em curso. Mas esta esperança é abalada à medida que fatores como a fome e a guerra não são erradicados e as indústrias servem para aumentar mais a exploração, além da grande repressão estatal sofrida.

Século XX

É neste período da história que surgem 1984, de George Orwell (escrito em 1948 e publicado em 1949), e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (idealizado em 1947 e publicado pela primeira vez em 1953). Os governos retratados nos livros fazem crer que as regras aplicadas são para o bem comum, mas encobrem a manipulação ideológica e distorção da realidade, vinda não de um inimigo único, mas todo um sistema. Através do controle e da disciplina impostos desenrola-se também um processo de assujeitamento, sujeitos que aceitam passivamente serem controlados, acreditando se tratar de uma forma de cuidado.

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O livro 1984 retrata uma sociedade comunista a-histórica centrada na figura do Grande Irmão, que tudo vê. Nenhum dos habitantes de Oceânia (local onde se passa a estória) parece se lembrar do que ocorreu antes da grande revolução que instaurou o sistema vigente, além de não possuírem um registro fixo de passado. A história está sempre em reconstrução para adequar-se às previsões feitas pelo líder e encobrir das demais pessoas os acontecimentos reais sobre a sociedade. Contando com dispositivos como as teletelas, aparelhos semelhantes a televisões que não só transmitem imagens como também as recebem, entre outros métodos, o Partido observa de perto cada indivíduo de modo a não permitir interações casuais e pensamentos discordantes da ideologia posta.

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Outro romance, Fahrenheit 451, tem sua história passada em um cenário no qual opiniões próprias são desestimuladas por não serem aceitas socialmente e onde livros são proibidos devido ao perigo que apresentam, o que leva ao seu extermínio pelos bombeiros. Um desses bombeiros é Guy Montag, protagonista da história, que segue a profissão de seu pai e avô e acredita estar fazendo a coisa certa ao destruir obras literárias, até ter sua curiosidade atiçada por eles.

Século XXI

Abordando agora as novas distopias, aquelas surgidas no início do século XXI, é importante destacar que seu diferencial em relação àquelas produzidas no pós-guerra é o fato de que estas se voltam ao público juvenil. Elas têm como alvo, jovens entre 14 e 23 anos de sociedades ocidentais em desenvolvimento ou desenvolvidas que, em sua maioria, não experimentaram o exercício de um governo totalitário.

O sucesso de vendas de algumas unidades do gênero com certeza foi um fator importante para a produção dos seguintes. Mas autores acreditam que além disso, fatores como divisão social, concentração de renda, controle social sobre subjetividades, exploração do trabalho humano, modos de ser hedonistas e egocêntricos, além da presença da mídia como agente opressor e alienante ajudam a desenvolver o clima negativista de nosso tempo.

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A saga Jogos Vorazes se passa em um país chamado Panem, reerguido após diversos desastres onde antes se localizava a América do Norte, formado pela Capital, rica (fútil) e tecnológica, e 13 distritos, explorados cruelmente. Insatisfeitos com os abusos sofridos, os distritos se levantaram contra a Capital, mas o fracasso desta insurreição levou à destruição do Distrito 13 e, como punição, a criação dos Jogos Vorazes, reality show onde, anualmente os doze distritos deveriam entregar dois “tributos” (um garoto e uma garota) para lutarem em uma arena na qual o último sobrevivente seria o vencedor.

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Já em Destino, a trilogia da autora americana Ally Condie, Cassia Reyes é uma jovem de 17 anos convicta em tudo o que a Sociedade preparou para sua vida, incluindo sua profissão, a idade em que vai morrer e com quem se casará. Ao participar do Banquete do Par e conhecer seu futuro marido, ela vê que o destino reserva como par seu melhor amigo, Xander. Mas ao chegar em casa e verificar novamente seu cartão de par, quem aparece é Ky, seu antigo vizinho. Ao perceber o que parece ser o primeiro erro da Sociedade, Cassia põe em xeque outras decisões arbitrárias sobre sua vida, e parte em busca do caminho de sua própria história. Diferentemente dos romances já citados, este livro não se trata de um mundo pós-apocalíptico, mas aborda temas como relacionamentos e livre arbítrio.

Logo, é possível ver que a “nova” distopia apresenta uma falsa utopia, organizações sociais aparentando perfeição e eficiência camuflando o controle social, tolhimento de liberdades e alienação, dominadas pela corrupção humana de modo a docilizar corpos.

Analisando os processos pelos quais passam as personagens das novas distopias, é possível notar a presença de um rito de passagem em cada uma delas. Os Jogos Vorazes e o Banquete do Par simbolizam etapas pelas quais os adolescentes passam nessa faixa etária, não sem sacrifício (de sua infância e inocência) ou angústias. Mesmo com a virada distópica e o surgimento de novas obras literárias, permanece o alarme de que, mantidas as condições presentes, o futuro tende apenas a se tornar mais destrutivo, questão que busca incomodar e impactar seus leitores.

A influência social na vida privada

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Na década de 1940, o mundo, principalmente os países ditos desenvolvidos, passa por grandes mudanças com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e a crescente industrialização, que, assim como a urbanização e a revolução técnico-científica, tiveram seu auge. Este período foi composto de diversas mudanças no cenário global em um pequeno período de tempo.

Baseada nas produções em série, surgiram as práticas massivas entre a sociedade, criando sujeitos submissos e passivos dos acontecimentos políticos de seu tempo. Na Inglaterra de George Orwell, novas tensões surgem, ocasionadas pela destruição de bombas, racionamento de comida no período imediatamente após as guerras, e, também, o desmonte da esperança pela paz, transformado em desespero.

Neste país, através da ajuda cedida pelos Estados Unidos com o Plano Marshall, o programa de nacionalização das indústrias e reestruturação da qualidade de vida, surge um forte impulso para o consumo, assim como nos EUA de Ray Bradbury, materializado, principalmente na forma de aparelhos televisores. O contexto doméstico em quase todas as nações do Ocidente é perpassado por ansiedades e um desejo expresso de reestabelecer a vida matrimonial e familiar, como se vê a partir do baby boom.

Pós-guerra

Nos livros analisados do período pós-guerra, a influência do governo se dá justamente nos relacionamentos afetivos. Em 1984, por exemplo, os casamentos são mera formalidade, já que as famílias se formam com o único objetivo de procriar e gerar futuros servidores do Partido Socing (Socialista Inglês).

A ideia de “família” também se encontra alterada em Fahrenheit 451. Montag leva uma vida infeliz, o que só percebe ao ser questionado por Clarisse, sua vizinha adolescente, e parte disto se deve ao seu casamento com Mildred, uma mulher que não ama. Ele chega a dizer que “se ela morresse, decerto ele não choraria. Pois seria a morte de uma desconhecida”.

Nesta obra, a televisão ocupa também uma posição central na sociedade mas, diferentemente das teletelas de 1984, elas servem apenas para distração e alienação de quem a assiste. Não se trata apenas de uma “telinha”, mas de telas que ocupam por completo as paredes, e, normalmente as quatro paredes de um cômodo, o que leva Mildred a considerar os atores que tanto acompanha como de sua família.

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Pouco se fala sobre relações de amizade em ambos os livros. Em 1984, este conceito parece não existir, restando apenas a camaradagem entre os membros do partido e servidão ao Grande Irmão. Já em Fahrenheit 451, nada se diz sobre possíveis amigos de Guy Montag: vemos apenas Clarisse e Faber como seus mentores para uma vida intelectualizada e as “amigas” de sua esposa, que se reúnem para ver televisão.

Ou seja, interações sociais servem apenas para manter o status quo. Na Oceânia objetivo é esvaziar seus habitantes de modo a preenchê-los com a doutrina do partido. Já em Fahrenheit 451, os relacionamentos vazios não são resultado de práticas do governo, mas apenas ocorrência do desuso, uma vez que as pessoas não viam mais função em conversas. A educação formal nesta última, inclusive, é vista como inútil, obsoleta: “A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”.

Pós-modernidade

No campo das relações sociais, em nosso tempo, perpassado por tecnologias que nos permitem uma aproximação virtual daqueles que se encontram distantes, percebe-se uma solidão contraditória através de conexões superficiais. Curiosamente, os livros produzidos neste período apresentam relações familiares e amorosas mais permissivas e fluidas quando comparadas aos livros do pós-guerra. Em Jogos Vorazes, por exemplo, as famílias se constituem devido a sentimentos genuínos e, embora algumas normas regrem seu funcionamento, pode-se ver os laços afetivos que unem esses agrupamentos.

Katniss, depois do falecimento de seu pai (o que afetou muito sua família), passou a ser a provedora de casa. Ama muito sua irmã, Prim, o que a faz, literalmente, oferecer sua vida por ela. Além disso, vemos sua amizade com Gale, seu companheiro de caça, com quem compartilha todas as suas inseguranças em relação à vida nos distritos, ao futuro e ao governo da Capital.

Em Destino, as relações familiares são completamente regradas pela Sociedade: os casais são “montados” no Banquete do Par e o número de filhos é previamente determinado. Mesmo assim, é possível perceber a presença de sentimentos e afetividade nas famílias, sendo nos relacionamentos entre casais ou nas relações entre pais-filhos e irmãos.

Os livros escritos no pós-guerra apresentam formações familiares meramente formais e destituídas de conexões afetivas, mesmo sendo este um período notadamente marcado pela busca da reestruturação familiar. Em um estudo sobre o significado do “lar” na Grã-Bretanha pós-guerra, é mostrado que, neste momento, lar é tido um lugar de conforto, onde as pessoas têm suas posses, mas também onde se está na companhia da pessoa ou pessoas que mais se ama.

Já o século XXI é um período marcado em especial por uma sociedade mais fragmentada socialmente e mais ainda ligada ao consumo. Porém, a representação social nos livros, mesmo que formada forçosamente, apresentam o que, por noção geral, constitui uma família: o afeto.

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Uma hipótese para essa aparente contradição é a necessidade, no contexto pós-guerra de reestruturar o país economicamente (no caso da Inglaterra), ou de firmar-se como potência (no caso dos Estados Unidos), sendo para isto primordial a construção de lares e famílias, a fim de estimular e manter os padrões de consumo. Desta forma, pode-se compreender a ausência de afeto em algumas relações familiares e o círculo social restrito aos ambientes de trabalho, já que este era o outro lado da moeda do fortalecimento econômico, posto em prática por estes governos capitalistas.

Nos dias atuais, no período chamado de pós-modernidade, o enfoque do capital, da sociedade e das propagandas recai sobre o indivíduo, de forma mais egoísta: “seja feliz”, “alcance seus sonhos”, “seja o melhor”, “ganhe destaque”. Talvez por isso haja essa tentativa de resgatar a família como base nos livros do século XXI, mesmo que se deva deixá-la eventualmente.

Nestes livros, o círculo social também é bastante valorizado, para além dos ambientes de trabalho, podendo serem vistas conexões também nos momentos de lazer. Um dos motivos para isto talvez seja o cenário de competição vivido na pós-modernidade (retratado também nas obras através dos Jogos Vorazes), e a necessidade de mostrar que mesmo em meio a tanta rivalidade é importante ter amigos com quem se pode contar em meio às adversidades.

Vida amorosa

Em Fahrenheit 451, não há passagens que denotem algum caráter romântico no personagem de Montag, enquanto em 1984, a relação amorosa entre Julia e Winston é o que os leva à ruína. Após receber de Julia um papel onde ela dizia lhe amar, Winston é encorajado a aproximar-se da moça: “A visão das palavras amo você fizera transbordar nele o desejo de continuar vivo, e a ideia de correr riscos menores pareceu-lhe de repente uma burrice”.

Como relacionamentos são proibidos em Oceânia, a união sexual do casal começa como um ato de rebeldia contra o Partido, porém, após algum tempo de convivência revela-se uma afeição genuína entre os dois personagens.

Embora haja sentimento entre Winston e Julia, não há romance, propriamente dito, trata-se de duas pessoas unidas em seus ideais políticos e com a necessidade de permanecerem juntas. Winston, que teme deixar de ser humano e tornar-se um autômato sem sentimentos, pensa que só estaria traindo Julia se fosse obrigado a deixar de amá-la. E é justamente desta forma que o governo mina o relacionamento entre eles, colocando-os um contra o outro.

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Nas novas distopias aqui estudadas não existe a proibição do amor como regra geral entre os governos. Na trilogia de Collins, o romance se dá entre Katniss Everdeen, personagem principal, e Peeta Mellark, seu colega de distrito, como forma de gerar popularidade para os dois, garantindo que conseguirão bons patrocinadores e apoio popular durante os jogos.

Katniss e Peeta são manipulados desde o início, por seus mentores, que os estimulam, desde a primeira aparição pública, a mostrarem-se como aliados, e não adversários, o que contraria as normas. Logo em sua entrevista televisionada inicial, Peeta se revela apaixonado por Katniss. Katniss percebe que nutre sentimentos por ele também, e que já não pode mais perdê-lo: “Porque nós deveríamos estar inventando essa coisa toda, representando nosso amor, e não nos amando de fato”.

As regras para vitória dos Jogos mudam: antes, apenas uma pessoa poderia sair vitoriosa, mas nesta edição, graças aos “amantes desafortunados”, os dois conseguem sair com vida, após ameaçarem cometer um duplo suicídio. Ao permitir este artifício que vai contra todo o seu esquema político, o presidente Snow percebe o ato de rebeldia e, para evitar que este seja interpretado da mesma maneira por pessoas dos distritos, exige que a relação iniciada pelo casal seja mantida.

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Já na trilogia de Ally Condie, todos os relacionamentos entre casais são formados pelo governo, levando mesmo ao banimento (ocorrido de forma velada) àqueles que amavam as pessoas “erradas”. Apesar disso, demonstra-se a existência de amor entre os casais formados compulsoriamente, como os pais da personagem principal, Cassia Reyes: “Quando nos sentamos para jantar, minha mãe abraça ele e pousa a cabeça no seu ombro por um momento, antes de lhe entregar a embalagem de alumínio. Ele estende a mão para tocar no seu cabelo, no seu rosto. Ao observá-los, penso que algum dia algo parecido pode acontecer a mim e a Xander”.

Os casais são estabelecidos e divulgados no Banquete do Par, quando os participantes têm 17 anos, e quem escolher ter um Par terá seu Contrato Matrimonial aos 21 anos para procriar aos 24, em média, aumentando a probabilidade de gerar filhos saudáveis. Cassia foi designada no Banquete ao seu melhor amigo de infância, Xander, porém, ao checar novamente seu microcartão, vê outro rosto, o de seu vizinho Ky.

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Este erro é o suficiente para que Cassia veja Ky com outros olhos, passando a ter sentimentos por ele. A recusa em aceitá-los vem da naturalização das regras impostas pela Sociedade, que a fazem crer que apenas seguindo as normas estará em segurança.

A trilogia de Ally Condie se apoia no direito, que se deveria ter, à liberdade de escolha e afetiva, uma vez que sentimentos são o que nos mantém humanos, como percebe Winston, de 1984. Sem eles seríamos apenas peças de um maquinário político e, por isso, justifica-se que nas sociedades distópicas estudadas os governos autoritários temem sua manifestação, seja na forma de compaixão, indignação ou amor.

Livre-arbítrio

Por se tratar de obras ficcionais retratando regimes totalitários, torna-se mais fácil culpar uma única figura ou órgão por todo o controle da subjetividade e influência na vida privada, seja ele o Grande Irmão ou o Presidente Snow, por exemplo. Mas na realidade, diversas sociedades de diversas épocas vêm fazendo esse monitoramento da vida pessoal de diferentes formas, sejam elas leis e normas, sejam convenções e fatos sociais.

Atualmente, com a constante vigilância empreendida por sistemas de câmeras onipresentes e o uso frequente das redes sociais é ainda mais perceptível como influências externas podem interferir em campos privativos íntimos. Como Katniss e Peeta, vemos pessoas viverem de sua imagem na tentativa de agradar um público a fim de obter reconhecimento, sem necessariamente exercer sua liberdade individual e agir conforme suas escolhas.

A história criada por Condie vai além de relacionamentos amorosos juvenis: ela o usa como parâmetro para elucidar o questionamento e a não conformidade com padrões socialmente impostos sobre como se comportar, trabalhar, casar, comer e viver. Padrões estes colocados para docilizar corpos e que se dão, muitas vezes, através de ausência ou controle de informações, sem que se perceba claramente quando se está reproduzindo-os.

Considerações finais

Enquanto a utopia idealizada no século XVI buscava a reparação das imperfeições sociais, confiante em um futuro melhor, as distopias do século XX têm a intenção de amedrontar seu público a partir de ideias que já se encontram em curso.

Na época da primeira onda distópica, o fim da década de 1940 e passadas as duas grandes Guerras Mundiais, o mundo passa por grandes mudanças econômicas, tecnológicas, com a aparição das grandes máquinas, e sociais, o que se reflete nas vidas privadas. A vida nas fábricas e a necessidade de reerguer o primeiro mundo leva à busca pelo reestabelecimento das famílias e vidas domésticas, a um impulso consumista e a uma limitação às interações sociais.

A distopia, nestes livros, empreende seu maior papel: um sinal de alerta para o que os autores consideravam errado no momento e que tenderia a se tornar pior com o tempo. Porém, nos romances atuais distópicos, o alerta ainda ressoa sobre as mesmas questões: o distanciamento das relações sociais físicas, enquanto há a aproximação virtual (nem sempre tão profunda e verdadeira) e a presença constante de telas tecnológicas monitorando os indivíduos.

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Ambas as trilogias produzidas neste início de século e aqui abordadas não apresentam uma solução para os problemas presenciados, não ousam propor uma utopia para opor-se à sua distopia. Seu objetivo principal é a crítica: denunciar as atrocidades cometidas no passado, já alertadas por Bradbury e Orwell, mas que se mantém em curso até o presente, ainda causando desconforto.

O propósito destas obras é atingir um público anteriormente “inalcançável” com as outras literaturas distópicas: os adolescentes e jovens adultos. O fato de ainda serem produzidas distopias mostra que ainda há inconformidade com o rumo bárbaro que o mundo está tomando, de modo a incutir nestes jovens o pensamento crítico, para que possam questionar assuntos como sua própria autonomia e o impacto de suas ações no âmbito social e global.

 

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