Pennyworth – 1ª temporada

Criador de Gotham, série da Fox focada em um jovem detetive Jim Gordon, Bruno Heller se aprofundou ainda mais no passado do Batman ao desenvolver Pennyworth, programa focado na juventude do mordomo Alfred Pennyworth – vivido na série por Jack Bannon – e suas desventuras em uma versão alternativa de Londres, na Inglaterra, após retornar da Segunda Guerra Mundial. Embora tente explorar a história da principal figura paterna de Bruce Wayne de maneira divertida e cheia de ação, a série se perde em conceitos desnecessários de outras produções e quebra as principais premissas de importantes personagens da mitologia do Cavaleiro das Trevas.

Situada em uma mistura dos anos 1950 e 1960, Pennyworth mostra Alfred poucos anos após seu retorno do exército, iniciando uma agência de segurança particular ao lado de seus colegas de pelotão Bazz (Hainsley Lloyd Bennet) e Dave Boy (Ryan Fletcher). O objetivo é criar um nome para si e não seguir a carreira do pai (Ian Puleston-Davies), que trabalha há 30 anos como mordomo de uma nobre família britânica. Apesar do esforço, o único trabalho conquistado pelo trio é como seguranças de uma boate elitista em Londres, onde Alfred conhece sua noiva, Esme (Emma Corrin) e, por acaso, Thomas Wayne (Ben Aldridge).

Cheia de ação e com os diálogos afiados já tradicionais trazidos por Heller em séries como Roma e The Mentalist, o canal Epix entrega uma boa produção policial com personagens carismáticos, sendo o aparentemente indestrutível Dave Boy o melhor deles. Ao longo dos dez episódios, o escocês alcoólatra é vítima de tiros, facadas, porretes e diferentes golpes físicos, mas sempre se levanta com um comentário irônico para mais um copo de cerveja. O ruivo rouba qualquer cena em que aparece, especialmente quando está ao lado do tranquilo e contido Bazz, com quem tem uma dinâmica hilária.

Apesar de contar com boas atuações, especialmente de seu elenco principal – e de Jessica Ellerby, que vive uma versão alternativa incrível da Rainha Elizabeth II – Pennyworth se perde ao misturar demais características de outras produções, tornando-se uma mistura de Peaky Blinders, 007 e Sherlock. Mesmo que o resultado não seja necessariamente ruim, a sensação de que tudo já foi visto antes é constante, algo que incomoda quando a intenção é explorar o curioso passado de um personagem tão querido do público.

Embora a história do protagonista não contradiga completamente o cânone dos quadrinhos, com Pennyworth sendo um grande lutador corpo-a-corpo e servindo diversas vezes à coroa, a série descaracteriza sem cerimônias Thomas e Martha (Emma Paetz), que ainda atende pelo sobrenome de solteira, Kane, com o primeiro sendo mostrado como um agente da CIA e a segunda como uma rica ativista política de extrema-esquerda. Embora essa mudança sirva bem à trama, ela pouco adiciona à história dos pais de Bruce, que poderiam ser personagens completamente diferentes sem mudar em nada o andamento da série.

Outro incômodo trazido pela primeira temporada de Pennyworth é a velha e cansativa prática do fridging ou “mulheres na geladeira” – vitimitar uma personagem feminina apenas para acelerar a trama de um protagonista masculino -, trama que vem e vai embora tão rápido que mal afeta o final da temporada. Mesmo que o destino de Alfred fosse inevitável ao fim do primeiro ano, existiam inúmeros caminhos diferentes para chegar à conclusão que não vitimando mais um interesse amoroso da DC.

Por outro lado, a intrigante – e infelizmente relevante – trama política apresentada na temporada cria uma ameaça real e assustadora na ascensão acelerada de forças de extrema-direita no Reino Unido, dispostas a tomar o governo por meio de uma guerra civil. Diferentemente de séries em que os principais vilões são personagens cartunescos ou serial killers prestes a serem pegos, os antagonistas de Pennyworth são colegas de trabalho, irmãos, pais e amigos, todos dispostos a matar e morrer por um idealismo radical, ameaçando criar um futuro muito mais aterrorizante do que as risadas do Coringa ou os enigmas do Charada.

Contando com um roteiro inteligente que dá suporte a boas performances, Pennyworth peca ao se cercar de alguns clichês – alguns mais incômodos do que outros -, mas nem por isso fica devendo no quesito diversão. Com voto de confiança da Epix, Bruno Heller criou um bom mundo noir em Londres e será necessária apenas uma pequena correção de curso para reaproximar o novo mundo de Alfred, Martha e Thomas dos quadrinhos da DC.



via Omelete

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